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segunda-feira, 26 de abril de 2010

ALGUÉM


Contigo ao meu lado,
não sou apenas um homem feliz,
sou alguém capaz de amar a vida,
de reconciliar-me com as coisas,
alguém capaz de existir,
de se sentir alguém...

Sem ti, não sou ninguém.

J.G de Araújo Jorge

COMPANHIA


Afinal tenho estes versos
com quem posso conversar e falar de ti,
sem que ninguém perceba,
sem precisar partilhar-te.

Afinal, tenho a poesia, para confessar-me,
e para te encontrar nas horas
em que a solidão
me amedronta.

J.G de Araújo Jorge

APELO


Apelei para o céu, para o mar, para as nuvens,
para as flores,
queria encontrar a imagem deste amor,
descrever a emoção que me perturba tanto
e que me esfria as mãos...

Para a poesia apelei...

Colhi apenas palavras... E diante do meu fracasso
tomei-te nos braços, e silenciei.

J.G de Araújo Jorge

A SEMANA


Segunda, me inflamo.
Terça, te amo.
Quarta, te vejo.
Quinta, te desejo.
Sexta, te quero.
Sábado, te espero.
Domingo, te sonho.

E quando longe de ti,
só para ti, componho.

J.G de Araújo Jorge

A NOITE... E TEUS OLHOS...


Ah! Parece que a noite vem se aleitar
de nebulosas e de astros
em teus fugidios.

E que teus olhos se abastecem de luz
e mistério,
nas noites profundas e consteladas...

J.G de Araújo Jorge

sábado, 24 de abril de 2010

SOZINHO


Já tenho o eu destino há muito desvendado.
hei de ser sempre só... Já não sei querer bem...
-depois que me prendi no amor... Fui desprezado,
e hoje quero ser livre e não amar ninguém...

Começo um novo mundo. É estranho o meu passado,
e sigo para frente, olhos fitos no além...
-Sem Ter o que buscar, eu mesmo, desolado,
muita vez me pergunto: - a quem procuro? a quem?

Felizmente estou só... E ninguém me diz nada...
-há apenas uma luz na distância vazia
fugindo, e vai ficando mais vazia a estrada...

É tanta a solidão que ela mesma se assombra,
e enquanto se afasta a luz que ainda me guia
quer fugir de meus pés a minha própria sombra!

J.G de Araújo Jorge

SONHADORES...



Há um cigarro a sonhar sobre o cinzeiro...
E eu vejo fugir seus sonhos
nas finas fitas azuis
da fumaça a subir pelo ar brincando...

Há um cigarro a sonhar - e ao vento que entra
pela janela aberta,
brilha um fogo em sua alma, e ele se acende
à proporção que em cinzas vai ficando...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

SILENCIOSAMENTE



Seguimos assim, juntos, felizes,
Juntos, felizes, pela vida a fora...
- Tu, no silêncio em que mais coisas dizes!
- Eu, no silêncio em que me encontro agora!

Meu passo há de seguir por onde pises!
E a tua mão, que em minha mão demora,
há de, com o tempo, até criar raízes,
unindo vida a vida, hora por hora...

Seguiremos assim, como bem poucos,
bendizendo na nossa trajetória
os que souberam como nós ser loucos...

Loucos de amor, ébrios de amor - seguindo
para um mundo de sonhos, para a glória
do silêncio que vamos repartindo!

J.G de Araújo Jorge

SE...


Se eu pudesse parar a minha vida
e dar eternidade a um só momento,
se eu não tivesse o meu destino preso
ao destino das coisas nos espaços...

Se eu pudesse destruir todas as leis
e dentro do Universo que se move
para meu mundo:

havia de escolher esse segundo
em que você estivesse nos meus braços!

J.G de Araújo Jorge

RAZÕES



Quando passas por mim depressa, indiferente,
e não me dás sequer, um sorriso... um olhar...
- como um vulto qualquer, em meio a tanta gente
que costuma nos ver sem nunca nos notar...

Quando passa assim, distraída, nesse ar
de quem só sabe andar olhando para frente,
e finges não me ver, e avanças sem voltar
o rosto... e vais seguindo displicentemente...

- eu penso com tristeza em tua hipocrisia...
Ninguém sabe que a tive ao meu amor vencida
e que um dia choraste... e que choraste um dia...

Mas para que contar? Que sejas sempre assim,
e que ninguém descubra nunca em tua vida
as razões por que passas sem olhar pra mim!...

J.G de Araújo Jorge

TUDO... NADA...


É isso mesmo a vida, - eu que tenho ao meu lado
a espera do primeiro gesto
mulheres que desprezo e que me tem paixão,
- imploro o teu amor, de joelhos, desprezado...

- És feliz, dizem uns; és querido e admirado;
outros dizem; - no entanto, eu sinto o coração
vazio, e ninguém sabe que em minha alma estão
presos, - um grande amor e um sonho imensurado...

- Podes ter aos teus pés o mundo e o que quiseres;
afirmam-me... E eu sorrio, amargurado e mudo
ante a oferta de amor de inúmeras mulheres...

Tanta cousa!... E a minha alma triste e amargurada!
- Que me adianta esse amor, esse mundo, isso tudo,
Se Tudo para mim, sem teu amor, é o Nada!...

J.G de Araújo Jorge

quinta-feira, 22 de abril de 2010

OS VERSOS QUE TE DOU


OS VERSOS QUE TE DOU

Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos... E serei feliz...

E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus também...
Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...

Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revive-los nas
lembranças que a vida não desfez...

E ao lê-los... Com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...

Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.

J.G de Araújo Jorge

quarta-feira, 21 de abril de 2010

LINHAS PARALELAS



Compreendemo-nos sempre incompreendidos,
como dois orgulhosos, sempre assim,
-não gostava de ti... Nem tu de mim...
afirmávamos ambos convencidos...

Isso dava-se outrora, em tempos idos,
antes do nosso amor chegar ao fim...
-hoje, depois de tanto orgulho, enfim,
nem somos vencedores nem vencidos...

Foi pouco tempo de namoro o nosso,
-não me esqueces no entanto totalmente,
como de todo te esquecer não posso...

Linhas iguais... Nascemos como um par
que, em paralelas, orgulhosamente
há de seguir sem nunca se encontrar!...

J.G de Araújo Jorge

INUTILMENTE


Há de ser desta vez... Dir-lhe-ei contente
todo este amor que no meu Ser se abriga,
e tomando-lhe as mãos bem docemente
relembrarei a nossa infância antiga...

E a dúvida que guardo e que a alma sente
hei de acabar dizendo:- "minha amiga,
quero, ouvi-la afinal sinceramente
sem recear ferir com que me diga..."

Penso assim... E, no entanto, quantas vezes
têm-a encontrando, e inutilmente os meses
e os anos vão passando entre nós dois...

Basta vê-la e em minha alma acovardada,
- já não sei nada, nem me lembro nada
e deixo tudo pra dizer depois!

J.G de Araújo Jorge

EXALTAÇÃO AO AMOR


Sofro, bem sei... Mas se preciso for
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrela alcançar... Colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco, talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... Com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu,
se é fogo que em meu peito se acendeu,
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor...
Se esse amor não puder ser meu viver,
há de ser meu para eu morrer de Amor!

J.G de Araújo Jorge

terça-feira, 20 de abril de 2010

E OS TEUS OLHOS ASSIM...


Nos teus olhos existe uma tortura imensa,
uma sombra de noite entre vagos clarões,
essa expressão inquieta e incerta de quem pensa
e vive o terror das interrogações...

E ao tempo que se esvai, cada vez mais se adensa
a noite em teu olhar ocultando aflições...
Parece que morreste, ou que sofres da doença
terrível da loucura ou das meditações...

A tua alma parou... A tua alma tão moça
não é como a água viva em loucas enxurradas,
mas como a água parada e morta de uma poça...

E os teus olhos assim... Lembram, nessa negrura,
duas janelas rindo, aos céus, escancaradas,
numa casa vazia abandonada e escura!

J.G de Araújo Jorge

DERRADEIRA INSPIRAÇÃO



Este é o último verso onde talvez
a tua imagem seja percebida,
- o instante derradeiro em que te vês
a inspirar o meu verso e a minha vida...

Guarda-o depois das linhas que tu lês
morrerás... E hás de ser sempre esquecida...
- não tornarei sequer uma só vez
a falar na lembrança mais querida...

Este é o último adeus que ainda te dou,
- termina aqui a imensa trajetória
que o teu destino sobre o meu traçou...

Daqui por diante... Avançarei sozinho,
e nunca mais te encontrarás na história
dos versos que fizer em meu caminho!

J.G. de Araújo Jorge

BORBOLETAS


Aos casais... - ante a espessa ramaria
verde, e rendada ao sol deste verão
- livres, felizes, cheias de alegria
as borboletas pelos céus se vão...

Despreocupadas... Pela floração
se perdem, numa inquieta correria...
- Onde foram?... e em que lugar estão?
Já não se vê o olhar que as perseguia...

Mas... de repente, voltam pelo espaço,
- trêmulas e amorosas de cansaço,
asas roxas e azuis côo violetas...

E invejoso pensei, vendo-as pelo ar:
- quem me dera nascer, viver e amar,
como aqueles casais de borboletas !

J.G. de Araújo Jorge

segunda-feira, 19 de abril de 2010

BAZAR DE RITMOS


Nas vitrinas há luz!... Está em festa o bazar
de ritmos, de sons, estranhos e diversos,
- onde canta a minha alma dentro dos meus versos
como num búzio canta e ecoa a voz do mar!

Quantos versos compus!... E que diversidade
de momentos... De estado de alma... Nos meus sons!
- traduz bem um bazar, a minha mocidade
na confusão febril das suas sensações...

Sensações que são minhas, por meu Ser sentidas,
mesmo aquelas talvez mais rubras... Mais bizarras...
- sinfonia de uma alma onde há notas perdidas
de violinos, pardais, pandeiros e cigarras!

Violinos, - nos meus poemas vagos, doloridos...
pardais, - nos meus trinados de alegria e amor...
pandeiros, - na cadencia ruim de meus sentidos,
e cigarras, nos versos cheios de calor!

Há dentro do bazar a estranha sinfonia
que escrevi para o mundo em toda orquestração,
- é a música da vida, um ser de cada dia
a desdobrar os "eus" da minha multidão...

Há ritmos que riem! Ritmos que gritam!
- vibrações como guizos finos e estridentes...
- emoções como sinos brônzeos e soturnos...

E, assim, nessa alternância, no meu Ser se agitam
- pedaços de rapsódias vivas e contentes...
- trechos emocionais e tristes de noturnos!...

Nas vitrinas há luz!... Está em festa o bazar!
Há sonhos... Ilusões... Lembranças... E segredos...
Tudo isto para a vida criança vir comprar,
e insensível destruir meus últimos brinquedos!

J.G de Araújo Jorge

A OUTRA VOZ


Se te pertence à vida, se em verdade
muito mais do que andaste ainda terás,
se com a esponja da tua mocidade
apagas tudo o que deixas atrás,

- esquece essa tristeza e as horas más,
crê na alegria e na felicidade... "

E eu apenas falei:- pensa e verás
que essa tua alegria é falsidade...

Confesso que a tristeza me apavora,
- mas para que de mim se desintegre
só matando a minha alma, onde ela mora...

E... tristeza maior sei que ainda existe,
é essa tristeza de fingir-se alegre
numa alegria duplamente triste!

J.G de Araújo Jorge
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